Uma das formas de descrever a psicose é como uma desconexão com a realidade. Durante minha pesquisa de dissertação de mestrado, tenho observado o que leva alguém a romper completamente com o real e viver em outra realidade, mesmo que ela seja terrorífica. Fui impactada pela quantidade de traumas infantis que essas pessoas sofreram. E é sobre isso que quero falar neste post.
Até que meu artigo seja publicado, este texto será apenas uma reflexão a partir das minhas percepções clínicas e dos casos que tenho analisado. Revisando quase 100 casos, notei que a grande maioria teve experiências traumáticas na infância: abuso sexual, físico e emocional, bullying, negligência emocional e física, além de imigração em condições adversas e abandono.
Dentre os casos que li, me perguntei como um ser humano vivendo em condições precárias (e aqui precariedade não está apenas relacionada a dinheiro) poderia não criar uma realidade paralela para enfrentar situações quase absurdas para quem não trabalha no setor.
Uma criança com alguma predisposição genética e que precisa lidar com a separação dos pais poderia desenvolver um episódio psicótico na adolescência ou na fase adulta? Segundo minhas pesquisas, sim. Mas o interessante é que, paralelamente ao trauma que a separação pode causar, outras experiências traumáticas também podem ser vividas por esse mesmo indivíduo. Quero dizer, é muito provável que uma criança que cresceu em uma casa caótica, com gritos e discussões, também tenha sido negligenciada, presenciado episódios de violência doméstica ou sido vítima dela, por exemplo.
Um cenário comum é ver uma pessoa que foi emocionalmente criticada e abusada na infância e que desenvolveu um quadro psicótico, podendo ter ideias de referência, como se as pessoas estivessem rindo dela, criticando-a ou diminuindo-a. Revisando esses históricos reais, a gente consegue fazer uma ligação entre os abusos e os sintomas. Por isso a importância da terapia.
Imaginar alguém que rompe com a realidade é também imaginar os possíveis momentos difíceis que essa pessoa possa ter vivido. É bem verdade que, em alguns casos que analisei, não encontrei nenhum trauma e me pergunto se essa pessoa foi corretamente avaliada ou se precisaria de mais sessões até se sentir pronta para falar sobre isso.
É tão evidente que as pessoas são únicas e que cada uma é capaz de suportar, ou não, determinadas experiências, mas o mundo tenta padronizar tudo. A gente ouve muita gente dizer: “Ah! Mas, quando eu era criança, eu passei por coisa muito pior.” A observação é válida, porque somos únicos e muitas variáveis podem levar a um episódio psicótico. A repetição do trauma, o tempo de exposição, tudo isso deve ser levado em conta.
A desconexão com a realidade, sem querer romantizá-la, pode ser, em alguns casos, uma tentativa extrema da mente de sobreviver ao que parece insuportável.